TERCEIRA PARTE
DAS PAIXÕES PARTICULARES
ARTIGO 149
A estima e o desprezo
Após ter explicado as seis paixões primitivas, que são como os gênreos de todas as outras constituem espécies, observarei aqui sucintamente o que há de particular em cada uma dessas outras e manterei a mesma ordem segundo a qual as enumerei anteriormente.
As duas primeiras são a estima e o desprezo. Embora esses nomes signifiquem usualmente apenas as opiniões que se têm de modo desapaixonado do valor de cada coisa, entretanto, posto que dessas opiniões nascem às vezes paixões às quais não foram atribuídos nomes específicos, parece-me que esses possam ser-lhes atribuídos.
A estima, na medida em que é uma paixão, é uma inclinação da alma para representar-se a si mesma o valor da coisa estimada, inclinação que é causada por movimento particular dos espíritos, de tal forma conduzidos ao cérebro que fortalecem as impressões que serem para esse efeito.
Como, ao contrário, a paixão do desprezo é uma inclinação que leva a alma a considerar a baixeza ou a pequenez daquilo que despreza, causada pelo movimento dos espíritos que fortalecem a idéia dessa pequenez.
ARTIGO 150
Essas duas paixões são apenas espécies de admiração
Assim, essas duas paixões não passam de espécies de admiração, pois, quando não admiramos a grandeza nem a pequenez de um objeto, não lhe conferimos nem mais nem menos importância do que a razão nos dita que devemos conceder, de forma que o estimamos ou o desprezamos então sem paixão.
Embora muitas vezes a estima seja excitada em nós pelo amor, e o desprezo pelo ódio, isso não é universal e provém apenas do fato de estarmos mais ou menos inclinados a considerar a grandeza ou a pequenez de um objeto, em virtude de termos mais ou menos afeição por ele.
ARTIGO 151
Podemos estimar-nos ou desprezar-nos a nós mesmos
Ora, essas duas paixões podem referir-se geralmente a todas as espécies de objetos, mas poder ser principalmente observadas quando as referimos a nós mesmos, isto é, quando é nosso próprio mérito que estimamos ou desprezamos.
O movimento dos espíritos que as causa é então de tal modo manifesto que muda até mesmo a expressão, os gestos, o andar e em geral todas as ações daqueles que concedem uma melhor ou pior opinião de si próprios que de costume.
ARTIGO 152
Por que motivo podemos nos estimar
Como uma das principais partes da sabedoria é saber de que forma é por que motivo cada um deve estimar-se ou desprezar-se, procurarei dar minha opinião a respeito.
Não observo em nós senão uma cisa que nos possa dar a justa razão de nos estimarmos, ou seja, o uso de nosso livre arbítrio e o domínio que temos sobre nossas vontades. É somente pelas ações que dependem desse livre arbítrio que podemos com razão ser louvados ou recriminados e ele nos torna de alguma forma semelhantes a Deus, transformando-nos em senhores de nós mesmos, contanto que não percamos, por negligência, os direito que ele nos concede.
ARTIGO 153
Em que consiste a generosidade
Assim creio que a verdadeira generosidade, que faz com que um homem se estimar até o mais alto grau em que pode legitimamente estimar-se, consiste apenas, em parte no fato de conhecer que não há que verdadeiramente lhe pertença, a não ser essa livre disposição de suas vontades, nem por que deva ser louvado ou recriminado, senão pelo seu bom ou mau uso e, em parte, no fato de que sente em si próprio uma firme e constante resolução de bem usá-la, isto é, nunca carecer de vontade para empreender e executar todas as coisas que julga serem as melhores.
Isso significa seguir perfeitamente a virtude.
ARTIGO 154
Ela impede que se despreze os outros
Aqueles que têm esse conhecimento e sentimento de si próprios persuadem-se facilmente de que cada um dos outros homens também os pode ter de si próprio, porque nisso não há nada que dependa de outrem.
Por isso é que nunca desprezam alguém. Embora veham muitas vezes que os outros cometem falhas que levam a evidenciar suas fraquezas, sentem-se, no entanto, mais inclinados a desculpá-los do que a recriminá-los e a acreditar que é mais por falta de conhecimento do que por falta de boa vontade que as cometem.
Como não pensam ser muito inferiores aos que possuem mais bens ou honras, ou mesmo que possuem mais senso, mais saber, mais beleza ou que os superam geralmente em algumas outras perfeições, também não se julgam muito acima daqueles que superam, porque todas essas coisas lhe parecem muito pouco consideráveis em comparação com a boa vontade, pela qual unicamnte se apreciam e que supõem também existir, ou pelo menos pode existir, em cada um dos outros homens.
ARTIGO 155
Em que consiste a humildade virtuosa
Assim, os mais generosos costumam ser os mais humildes. A humildade virtuosa consiste apenas em que a reflexão que fazemos sobre a debilidade de nossa natureza e sobre as faltas que podemos ter cometido outrora ou que somos capazes de cometer agora, que não são menores do que aquelas que poder ser cometidas por outros, é causa de não nos preferirmos a ninguém e de pensarmos que os outros, por terem seu livre arbítrio tanto quanto nós, também podem usá-los bem.
ARTIGO 156
As propriedades da generosidade e como ela serve de remédio contra todos os desregramentos das paixões
Aqueles que são generosos dessa forma são naturalmente levados a fazer grandes coisas e, no entanto, a nada empreender daquilo de que não se sentem capazes.
Uma vez que nada estimam como mais sublime do que fazer bem aos outros homens e desprezar seu próprio interesse, por esse motivo são sempre perfeitamente corteses, afáveis e prestativos para com quem quer seja.
Com isso, são inteiramente senhores de suas paixões, particularmente dos desejos, do ciúme e da inveja, porque não há coisa cuja aquisição dependa deles que julguem valer o suficiente para merecer ser muito desejada. São senhores também do ódio para com os homens, porque os estimam a todos. Também do medo, porque a confiança que depositam em sua própria virtude os tranquiliza. Enfim, também da cólera, porque, apreciando muito pouco todas as coisas que dependem dos outros, nunca concedem tanta vantagem a seus inimigos a ponto de reconhecer que são por eles ofendidos.
ARTIGO 157
O orgulho
Todos aqueles que se forma uma boa opinião sobre si próprios por alguma outra causa, qualquer que seja, não têm verdadeira generosidade, mas somente orgulho, que é sempre muito defeituoso, embora o seja tanto mais quanto a causa pela qual nós nos estimamos for mais injusta.
A mais injusta de todas é quando somos orgulhosos sem nenhum motivo, isto é, sem que pensemos por isso que há em nós qualquer mérito pelo qual devemos ser estimados, mas só porque não fazemos caso do mérito e porque, imaginando que a glória não passa de uma usurpação, acreditamos que aqueles que se atribuem mais glória são aqueles que a têm mais.
Esse vício é tão insensato e tão absurdo, que eu teria dificuldade em acreditar que houvesse homens que se deixassem levar por ele, se jamais alguém tivesse sido elogiado injustamente. A lisonja, porém, é tão comum em toda parte que não há homem, por defeituoso que seja, que não se veja muitas vezes estimados por coisas que não merecem nenhum elogio ou até mesmo que merecem recriminação. Isso dá ocasião aos mais ignorantes e aos mais estúpidos a caírem nessa espécie de orgulho.