ARTIGO 158
Os efeitos do orgulho são contrários aos da generosidade
Qualquer que seja, porém, a causa pela qual alguém se estima, se ela for diferente da vontade que se sente em si mesmo de usar sempre o bem o próprio livre arbítrio, da qual eu disse que provém a generosidade, ela produz sempre um orgulho extremamente censurável, e que é tão diverso dessa verdadeira generosidade, que produz efeitos inteiramente contrários.
Todos os outros bens, como o espírito, a beleza, as riquezas, as honras, etc., costumando ser tanto mais apreciados quanto em menos pessoas se encontram e sendo memo para a maioria de tal natureza que não poder comunicados a muitos, isso faz com que os orgulhosos procurem rebaixar todos os outros homens e, sendo, escravo dos seus desejos, têm a alma incessantemente agitada pelo ódio, pela inveja, pelo ciúme ou pela cólera.
ARTIGO 159
A humildade defeituosa
Quanto à baixeza ou humildade defeituosa, ela consiste principalmente no fato de que nos sentimos fracos ou pouco resolutos e de que, como se não dispuséssemos do uso inteiro de nosso livre arbítrio, não podemos nos impedir de fazer coisas das quais sabemos nos haveremos de arrepender depois. Além disso, também no fato de que acreditamos que não podemos subsistir por nós mesmos, nem passar sem muitas coisas cuja aquisição depende dos outros.
Desse modo, é diretamente oposta à generosidade e acontece muitas vezes que aquele que possuem o espírito mais baixo são os mais arrogantes e soberbos, da mesma maneira como os mais generosos são os mais modestos e os mais humildes.
Enquanto, porém, aqueles que têm o espírito forte e generoso não mudam de humor na prosperidade ou na adversidade que lhes ocorrem, aqueles que o têm fraco e abjeto são conduzidos apenas pela sorte e a prosperidade não os infla menos que a adversidade os torna humildes.
Pode-se observar até mesmo que muitas vezes se rebaixam vergonhosamente diante daqueles de quem esperam algum proveito ou temem algum mal e que, ao mesmo tempo, se elevam insolentemente acima daqueles de quem não esperam nem temem coisa alguma.
ARTIGO 160
Qual é o movimento dos espíritos nessas paixões
De resto, é fácil reconhecer que o orgulho e a baixeza não são somente vícios, mas também paixões, porque sua emoção aparece de modo marcante no exterior naqueles que são subitamente inflados ou abatidos por qualquer nova circunstância.
Pode-se duvidar, porém, se a generosidade e a humildade, que são virtudes, podem também ser paixões, porque seus movimentos aparecem menos e porque parece que a virtude não concorda tanto com a paixão, como ocorre com o vício.
Não vejo razão, contudo, que impeça que o mesmo movimento dos espíritos que serve para fortalecer um pensamento, quando tem um fundamento que é mau, não o possa fortalecer também, quando seu fundamento é justo.
Como o orgulho e a generosidade consistem somente na boa opinião que temos de nós próprios, e só diferem em que esta opinião é injusta num e justa na outra, parece-me que podemos relacioná-los a uma mesma paixão que é do amor, tanto daquela que temos por nós próprios como daquela que temos pela coisa que faz com que nos estimemos.
Como, ao contrário, o movimento que excita a humildade, quer virtuosa quer defeituosa, é composto daqueles da admiração, da tristeza e do amor que sentimos por nós próprios, misturados com o ódio que se nutre pelos próprios defeitos, peque fazem com que nos desprezemos.
Toda a diferença que observo nesses movimentos é que aquele da admiração tem duas propriedades. A primeira, que a surpresa o torna forte desde o começo, e a outra, que é igual em sua continuação, isto é, que os espíritos continuam se movendo na mesma proporção no cérebro.
Dessas propriedades, a primeira encontra-se bem mais no orgulho e na baixeza do que na generosidade e na humildade virtuosa. Ao contrário, a útlima se observa mais nessas do que nas duas outras. A razão disso é que o vício provém usualmente da ignorância e que aqueles que menos se conhecem são os mais sujeitos a se orgulharem e a se humilharem mais do que devem, porque tudo o que lhes acontece de novo os surpreende e faz com que, atribuindo a si próprios, se admirem e se estimem ou se desprezem, conforme julguem que o lhes acontecem é ou não em seu proveito.
Como muitas vezes, porém, após uma coisa que os orgulhou sobrevém outra que os humilha, o movimento de suas paixões é variável. Ao contrário, não há nada na generosidade que não seja compatível com a humildade virtuosa, nem aliás nada que as possa mudar, o que torna seus movimentos firmes, constantes e sempre muito semelhantes em si mesmos.
Não surgem, porém, tão surpresa, porquanto aqueles que se estimam dessa maneira conhecem de modo suficiente quais são as causas que os levam a estimar-se. Pode-se dizer, contudo, que essas causas são tão maravilhosas (a saber, o poder de usar nosso livre arbítrio que faz com que nos apreciemos a nós mesmos, e as imperfeições do sujeito em que está esse poder que fazem com que não nos estimemos demais) que todas as vezes que as representamos de novo a nós mesmos proporcionam sempre uma nova admiração.
ARTIGO 161
Como a generosidade pode ser adquirida
Cumpre observar que aquilo que denominamos usualmente virtudes são hábitos da alma que a dispõem a certos pensamentos, de modo que essas virtudes são diferentes desses pensamentos, mas podem produzi-los e reciprocamente ser por eles produzidos.
Deve-se observar também que esses pensamentos podem ser produzidos unicamente pela alma, mas ocorre muitas vezes que algum movimento dos espíritos os fortalece e, nesse caso, são ações de virtude e aos tempo paixões da alma.
Assim, embora não haja virtude à qual o bom nascimento pareça contribuir tanto como a que faz com que nos estimemos apenas segundo nosso justo valor e, ainda que seja fácil crer que todas as almas postas por Deus em nossos corpos não são igualmente nobres e fortes (o que me levou a chamar essa virtude de generosidade, segundo o uso de nossa língua, antes que magnanimidade, segundo o uso da escola, onde não é muito conhecida), é certo, no entando, que a boa formação serve muito para corrigir os defeitos do nascimento.
Se nos ocuparmos muitas vezes em considerar o que é o livre arbítrio e quão grandes são as vantagens provenientes do fato de termos uma firme resolução de usá-lo bem, assim como, de outro lado, quão inúteis e vãos são todos os cuidados que afligem os ambiciosos, podemos excitar em nós a paixão e, em seguida, adquirir a virtude da generosidade que, sendo como que a chave de todas as outras virtudes, é um remédio geral contra todos os desregramentos das paixões. Parece-me que essa consideração merece muito ser destacada.
Descartes – As paixões da alma
Novembro 16, 2009 por Concurseira