ARTIGO 146
Dos desejos que dependem de nós e dos outros
Deve-se, portanto, rejeitar inteiramente a opinião popular de que há fora de nós uma sorte que faz com que as coisas aconteçam ou não aconteçam, a seu bel-prazer, e saber que tudo é conduzido pela providência divina, cujo decreto eterno é de tal modo infalóvel e imutável que, excetuando as coisas que esse mesmo decreto quis pôr na dependência de nosso livre arbítrio, devemos pensar que, a nosso despeito, nada acontece que não seja necessário e como que fatal, de modo que não podemos sem erro desejar que aconteça de outra forma.
Como a maioria dos nossos desejos, porém, se estende a coisas que não dependem de nós, nem todas de outrem, devemos exatamente distinguir neleas o que dependem apenas de nós, a fim de estender nosso desejo somente a isso.
Quanto ao mais, embora devamos considerar sua ocorrência inteiramente fatal e imutável, a fim de que nosso desejo não se ocupe com isso, não devemos deixar de considerar as razões que levam mais ou menos a esperá-la, a fim de que essas razões sirvam para regular nossas ações.
Se tivéssemos de tratar, por exemplo, de algum negócio em determinado local, para onde pudéssemos seguir por dois caminhos diversos, um dos quais costuma ser mais seguro que o outro, embora talvez o decreto da providência seja tal que, se formos pelo caminho considerado mais seguro, seremos certamente assaltados e que, ao contrário, poderemos passar pelo outro sem perigo algum, não devemos por isso ser indiferentes à escolha de um ou de outro, nem repousarmos sobre a fatalidade imutável desse decreto, mas a razão quer que escolhamos o caminho que costuma ser o mais seguro. Nosso desejo deve ser realizado em relação a isso, quando nós o seguimos, qualquer que seja o mal que possa acontecer porque, sendo esse mal em relação a nós inevitável, não temos nenhum motivo para almejar ficarmos isentos dele, mas somente executar da melhor maneira aquilo que nosso entendimento pôde conhecer, assim como suponho que o fizemos.
É certo que, quando nos exercitarmos em distinguir assim a fatalidade da sorte, nós nos acostumamos facilmente a regular de tal forma nossos desejos que, porquanto sua realização não depende senão de nós, eles sempre podem nos proporcionar inteira satisfação.
ARTIGO 147
As emoções interiores da alma
Acrescentarei ainda somente uma consideração que me parece servir muito para nos impedir de receber qualquer incomodalidade das paixões.
É que nosso bem e nosso mal dependem principalmente das emoções interiores que não são excitadas na alma senão pela própria alma; nisso diferem dessas paixões que dependem sempre de algum movimento dos espíritos.
Ainda que essas emoções da alma estejam muitas vezes unidas com as paixões que se assemelham a elas, podem muitas vezes também se encontrar com outras e mesmo nascer daquelas que lhe são contrárias.
Quando um marido, por exemplo, chora sua mulher falecida, ele ficaria (como acontece às vezes) irritado em vê-la ressucitada. Pode acontecer que seu coração esteja oprimido pela tristeza que nele provocam o aparato dos funerais e a ausência de uma pessoa a cujo convívio estava acostumado; e pode acontecer que alguns restos de amor ou de piedade que se apresentem à sua imaginação arranquem verdadeiras lágrimas de seus olhos, não obstante sentir secreta alegria no mais íntimo de sua alma, emoção que possui tanto poder que a tristeza, e as lágrimas que a acompanham, em nada podem diminuir sua força.
Quando lemos aventuras estranhas num livro ou quando as vemos representadas num teatro, isso excita às vezes em nós a tristeza, outras vezes a alegria ou o amor ou o ódio e geralmente todas as paixões, segundo a diversidade dos objetovs que se oferecem à nossa imaginação; mas com isso temos prazer de senti-las exercitar-se em nós e esse prazer é uma alegria intelectual que pode tanto nascer da tristeza como de todas as outras paixões.
ARTIGO 148
O exercício da virtude é um soberano remédio contra as paixões
Ora, uma vez que essas emoções interiores nos tocam mais de perto e têm, por conseguinte, muito mais poder sobre nós do que as paixões que se encontram com elas, e das quais diferem, é certo que, conquanto nossa alma tenha sempre do que se contentar em seu íntimo, todas as perturbações que vêm de outras partes não dispõem de nenhum poder para prejudicá-la, mas servem antes para aumentar sua alegria, pelo fato de que, ao constatar que não pode ser ofendida por elas, conhece com isso sua própria perfeição.
Para que nossa alma tenha assim do que estar contente, não necessita senão seguir precisamente a virtude.
Quem quer que tenha vivido de tal maneira que sua consciência não possa recriminá-lo de nunca ter deixado de fazer todas as coisas que julgou serem as melhores (que é aquilo que chamo aqui de virtude), recebe com isso uma satisfação que é tão poderosa para torná-lo feliz, que os mais violentos esforços da paixão nunca têm poder suficiente para perturbar a tranquilidade de sua alma.
Descartes – As paixões da alma (arts. 146 a 148)
Novembro 16, 2009 por Concurseira