Tempo ao tempo
Determinados momentos na vida da gente, acredito, deva se dar “tempo ao tempo”.
É uma frase sem sentido nenhum: “Tempo ao Tempo”.
Como dizer a si mesmo: “Calma, tudo na vida passa, veja pelo lado positivo da coisa…”
Parece mãe consolando a filha adolescente apaixonada pelo rapaz mais lindo do colégio. Ressaltando que a filha é gorda, feia, cheia de espinha na cara, mais atraente que um chuchu.
Estava lendo um livro “O Grande Projeto” de Stephen Hawking e outro cara aí, estou com preguiça de pesquisar agora, ao qual diz que a Teoria M é a solução para todos os problemas existenciais que existem. Bacana? Problemas existenciais que existem em sua existência. É, profundo. Tão profundo que chego a rir de mim mesma. Mas, enfim, é uma teoria que abrange todas as demais teorias, leis e postulados da física clássica e da física quântica.
Eu não entendi nada depois da metade do livro, por isso, parei. Vou retomá-lo quando a minha cabeça estiver melhor. No momento, a minha preocupação imediata é comigo, com os meus problemas, com as minhas dificuldades, com as minhas desculpas, com as minhas fraquezas, com as minhas limitações… Estou vendo só o lado negro da força.
É muito fácil ser uma boba alegre. Faço isso com os pés nas costas. Sou uma boba alegre por natureza. A dificuldade é ser séria, é trazer no cenho aquela dor de alguma coisa que não sabe exatamente o que é, a inquietação que tira o sono, deixa o corpo e a cabeça cansada de pensar, de matutar uma solução para um problema, do qual, aceitando ou não, eu mesma não sei qual é!
“É um contentamento descontente” como dizia alguém aí que eu também não estou afim de procurar. Camões?
Então, eu estou com aquele cansaço de pessoa velha, que viveu uns 100 anos e pede para a vida seja ceifada o quanto antes, porque não consegue mais carregar o fardo de uma vida de desilusões e medos. É uma situação de MERDA encontrar-se assim – sem mais nem menos – sem entender o que de fato fomenta esse tipo de pensamento auto-destrutivo ou autodestrutivo que a gente tem do nada.
Agora mesmo estou fazendo um exercício comigo mesma. Eu não preciso olhar o teclado para digitar. Normalmente o faço com a maior facilidade do mundo, sinto-me como se estivesse tocando um piano e se perder a nota, o público percebe a falha. Aí então, eis que serve o “delete” ou o “backspace” que funciona como uma verdadeira magia e “puft” aquela letrinha errada sai de cena.
Eu me lembro quando fiz datilografia aos 9 anos de idade. Era fascinante ter em mãos uma máquina que representava tão bem os meus dedinhos nela. Ia na letra “a” e eis que a letra “a” aparecia. Apertava uma outra tecla, com mais força, o capslock atualmente tem essa função e lá estava a letra “A” maiúscula. Achava tão interessante aquela máquina. Eis que eu ganhei uma Olivetti verde, daquelas bem antigas, “Lettera”. Achei uma igual na internet:
Ela tinha uma fita vermelha e preta. Era o meu passatempo predileto durante certo tempo. Normalmente, quando criança, enjoava-me muito fácil das brincadeiras. Achava-as entediosas, na maior parte do tempo. O que eu gostava era de brincar no meio do mato, no meu quintal. Adorava ficar pendurada nos galhos das árvores das goiabeiras, comendo goiaba com bicho, mais suja que um menino, cheia de energia para gastar!
Eu era uma criança hiperativa, provavelmente, na época, considerada uma capeta, mesmo. Tanto que quando li o livro “O meu pé de laranja lima”, de alguém aí que eu também não me lembro o nome, meu Deus, como eu chorei. Chorei de soluçar. Foi uma história lindíssima, sendo que o irmãozinho era o capetinha… Ah, como é lindo aquele livro, deveria lê-lo mais uma vez.
Enfim, essa época da minha infância divertia-me com máquina de escrever, com a leitura de livros de economia política, de outros autores que eu desconhecia a origem, sendo que o maior livro de todos os tempos, em toda a minha história de vida, nessa época me influenciando enormemente foi “O Poder da Mente”.
Lembro-me como hoje da capa: cheia de estrelas, escrito em amarelo e que me fizeram – desde nova – ser uma pessoa estranha. Essa pessoa estranha que vos escreve teve alguns problemas de ordem psicológica aos 11 anos de idade. Fiquei extremamente depressiva com a morte da minha tia … “Ela me deixou”. Era o que eu pensava. Agora, poucos anos atrás, exatos dois anos, quando a minha avó faleceu – depois de tantas perdas também – o sentimento não era mais o mesmo. A minha avó não me deixou, ela apenas deu um “sumiço” repentino e logo mais encontrar-me-ei deitada em seu colo com ela fazendo cafuné na minha cabeça, com aquele cheirinho de xixi que todo velho tem.
E não adianta, eu não consigo imaginar a minha avó nova falando comigo e eu achando algo normal. Ela sempre foi enrugada desde que eu a conheci. Desde nova a vejo como minha “avó” e não como minha “mãe”, mesmo que as vezes eu confunda as bolas, acabe dando o mesmo crédito a ela, mas, não é minha mãe. Ela foi a minha avó. E amo essa velha do fundo do meu coração e não vai ter tempo que consiga esquecer! Eu – e minhas neuroses – tinha medo de esquecê-la, antes mesmo de perdê-la, portanto, fiquei muitos e muitos anos tentando gravar em mim cada pedacinho da sua mão, das ruguinhas e a pele mole e os ossinhos da mão, das juntas dos dedos, de cada partinha que eu puxava para sentir a textura tão suave, tão lisa, mão de alguém que não fazia mais trabalhos manuais, não mexia mais em roupa, material de limpeza, nada.
Lembro de suas unhas, do comprimento, da cor, da espessura das listras que tinham nas unhas em si, acho que tinha alguma falta de alguma coisa, porque ela tinha a mesma coisa que eu tenho, uma unha meio que desnivelada…
A pelanca do pescoço, claro, não posso me esquecer da pelanca… Eu adorava pegar a pelanca do pescoço e ficar mexendo, porque o que temos no gogó é pele, a da minha avó era pelanca mesmo… Aquela pele enrugada, mole, que ficava concentrada entre o pescoço e o queixo. Ah, o queixo… Tinha umas porosidades decorrentes de cravos, já que a limpeza do rosto não era tão assim… Então, vão se acumulando os cravos, esses mesmos cravos – eu tirava-os sem dó – eram minha fonte de pegar no rostinho da véia.
Ah… o rostinho da minha véia… Eu lembro da minha avó no caixão. Essa imagem não deveria ter dela. Dura, imóvel, cheirando a talco, com uma roupinha amarela, com aqueles dedos inchados de tanto remédio que deve ter tomado na veia. Eu me lembro que quando a vi dura, imóvel e roxa, quase tive um treco!! E aí eu queria olhar para os lados e gritar para todo mundo ir embora e eu ficar com ela. Era uma sensação tão estranha, parecia que aquilo ali não estava acontecendo…
Eu olhei para as pessoas e não vi ninguém. Não reconhecia o rosto de ninguém. Só a minha tia Ana que estava a meu lado no caixão para pedir para colocar o terço na mão dela. Eu não conseguia pegar naquela mão dura! Ela não era a mesma. Ela não tinah a mesma mão que eu acariciava e a pele desgrudava. Era uma textura dura, insólita, morta.
A minha avó estava morta! E eu não conseguia entender aquilo? Eu não conseguia aceitar aquilo? Caralho, minha avó não morreu… Claro que morreu, ela está morta e enterrada num cemitério. O caixão dela está lá. Quer ver? Vai pedir exumação do corpo! Ora, que inferno, ela está aonde então?
Tem vezes que eu tenho uma vontade de descobrir aonde minha avó está. A ideia de existe vida após a morte é ótima, porque não nos dá a sensação de finitude. Viveu, morreu, acabou. Seria muito triste realmente, o homem é cheio de querer inventar histórias para tentar lidar com aquilo que o atormenta. Eram os Deuses antigos os responsáveis pela chuva, sol, raios e tempestades. Esse mesmo Deus se travestiu e virou o que hoje entendemos por tantas coisas, tantos nomes, por tantas besteiras, que dá até medo.
E cadê a minha avó?
A minha avó está desenhada na minha lembrança. Duvido, mas eu duvido mesmo, que alguém, além de mim e de minha mãe tenha condições de dar tantos detalhes precisos de minha avó! A orelha dela era enorme, claro, dizem que a orelha da gente não pára de crescer, a dela fazia jus a esse ditado. A perna dela, tadinha, fina, atrofiada, já não podia andar a tanto tempo. A parte que tinha um roxinho, de sangue coagulado, provavelmente de alguma batida num pé de cadeira, ou num … sei lá, no pé da cama, da cadeira de roda, não era nada demais, mas tinha um roxinho… Minha mãe passava muito hirudoid para não ficar nenhum hematoma por seu corpo decorrente da própria má-circulação. Ela tinha problema de pressão, logo, tomava remédios para fazer com que ela urinasse bastante.
Era o festival das fraldas geriátricas. Eu não tinha nojo não, tinha preguiça, mas, quando a gente é responsável por um idoso, só muda o tamanho, a preocupação é a mesma. Tudo bem que me corta o coração quando ela estava dormindo e a gente assistindo filme na sala, e ela, com aquela voz de gente idosa, chamando: “Nheta, ….”
O Deus… Por que não apagar da memória? Eu lembro do filme do Jim Carey – sei lá se o nome dele se escreve assim – que ele tenta apagar da memória a menina, pela qual, também tinha apagado da memória dela, ele.
Não adianta, pela história do filme, quando a gente ama mesmo, não tem tecnologia ainda que possa fazer um “desamarrar” de fatos e eventos envolvendo a pessoa. No caso da minha avó ainda tem o agravante que até a minha vida adulta, aos 31 anos, ela esteve quase todos os dias de minha vida comigo, quer dizer, se fosse para apagar a minha avó da minha história, com o apagar, iria junto…
Eu acho que parte disso que estou sentindo hoje é isso: parte de mim que foi embora e que agora eu tento desesperadamente encontrar. São dois anos de solidão. São dois anos que eu estou construindo minha história sem a minha avó. Por que raios eu fico me cobrando para estar bem em uma situação tão complexa como essa? Qual o modelo que eu tenho como base para que eu fique me cobrando? Minha mãe?
Sei lá, a minha mãe viveu tantos anos presa dentro de casa, só cuidando da minha avó, que dado momento, no dia de sua partida, não sofreu tanto assim – sofreu, obviamente, mas não na mesma intensidade que eu e meu tio, por exemplo, que até hoje chora ao lembrar dela, como eu – porque ela sentiu-se livre para viver um pouco a sua vida. Aos 53 anos a D. Nheta pode trabalhar, estudar e ter uma vida feliz. PS: não trabalha, só estuda e se é feliz, é por conta e risco dela, a minha parte eu faço… ou tento fazer.
A minha mãe é uma pessoa que eu tenho que ficar atenta também. As vezes, pelo fato de tê-la sempre a meu lado, acabo não dando a mesma atenção que eu dava a minha avó, na questão dos detalhes, das lembranças minuciosas, desses detalhes intrínsecos à pessoa e à observação, que as tornam especiais.
Por exemplo, a minha mãe tem a mão grossa, as unhas compridas, a pele macia e tenra, como se fosse um peito de frango – rs… cru.
Eu preciso dormir, eu preciso dormir. Eu preciso dormir urgentemente, já que os meus óculos não dão conta do recado, meus olhos estão cansados, meus dedos estão começando a doer, de tanto digitar freneticamente. O que eu quero? Uma tendinite a toa?
Verdade… Vou ajudar o câncer no pulmão fumando um cigarrinho. Fui.